terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Marujo de Papel Pardo

Na beira do cais aporto o meu barco. De madeira forte e enrijecida, o vejo a flutuar sobre o mar salgado e profundo ao leste do horizonte. É tudo sempre tão especial aportar em uma cidade tão próxima da minha e sentir que novamente chego em paz ao meu destino. Não é sempre que um marujo pode se dar ao luxo de celebrar a sua existência. Em meio a tantos navios destruídos e presságios de morte, sou capaz de sonhar com outra vida. Talvez morar nos Alpes ou fazer novos amigos no centro da cidade. Iria comprar uma casa, um carro e depois largar tudo aquilo que venho treinando a anos. Não sou capaz de me imaginar fazendo isso, apenas me deixo levar nestes devaneios de que a vida um dia irá mudar.
A luta dos meus capitães me mostrou que nem sempre é preciso velejar em mares fortes para aprender a sobreviver as situações de risco. Por isso, agora já em terra firme, me deixo levar pela leve movimentação deste navio atracado e ao mesmo tempo penso que eu mesmo me sinto atracado a ele. Algo como se estivéssemos dividindo, eu e ele, a mesma âncora, e carregando ambos, toneladas e toneladas de mercadorias e passageiros em nossas costas. Somos amigos eu e minha embarcação, embora muitas vezes já o quisera abandonar por outras mais reluzentes. Mas, no final destes mesmos devaneios de abandono, volto a me lembrar dos capitães que passaram por ele e me lembro de que vi muitos destes mesmos navios brilhosos naufragarem em marés mansas.
Para um marinheiro pequeno como eu, é mais seguro velejar em embarcações rígidas e sólidas a se arriscar em navios luxuosos de papel. Pois para mim é muito mais válido trazer experiências de aprendizado destes mares do que arrancar-lhe pequenos objetos sem valor que embora agrade o ouvido de qualquer pescador, não é capaz de alimentar as necessidades de um bom coração.

Seja um bom marinheiro em sua própria embarcação e um dia aprenderás a navegar por todos os mares. E não busque ser comandante antes da hora, porque senão as ondas deste mar lhe serão imperdoáveis.

- Guilherme BoaVista escrito por

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A Menina do Vestido Branco Sem Cor

A praia possui o mar. As árvores possuem os pássaros. E eu, o que possuo? Era esta a questão que assolava a jovem a beira mar. Com seus cabelos compridos e seus óculos novos caminhava em direção ao mar como se fosse encontrar a resposta para todas as suas perguntas por debaixo de uma rocha ou dentro de um casco de um navio afundado. Não era mais menina já fazia um certo tempo e as suas perguntas antes limitadas ao sabor dos temperos e a cor dos doces já ultrapassavam a sua própria existência. O seu vestido, todo branco, indicava uma paz interior que embora já estivesse abalada por tantas vezes, agora já se acostumara com aquela ideia de solidão. Sabia que havia em algum lugar, por detrás daquele mar , alguém que também a estaria olhando e filosofando sobre a existência de alguém com seus mesmos sentimentos.
Ela não era perfeita. Mas ele também não precisava ser. Contanto que também pensasse sobre os pássaros e as árvores de vez em quando. E que soubesse cozinhar, pois embora não necessitasse se mostrar as amigas, certamente era admiradora de comidas bem temperadas e de doces coloridos.
Não sabia até quando ficaria admirando aquele mar ou se voltaria àquele lugar se soubesse que não haveria  homem algum por trás dele. Apenas seguia os próprios passos tentando espiar alguma sombra por trás de cada onda. E via a si mesmo trajada naquele vestido branco se transmutando pela espuma salina do cais do porto e chegando em direção àquele homem. O Sol já não brilhava tanto quando chegou a conclusão que deveria retornar a sua realidade de moça descompromissada. Isso a machucava um pouco, mas não a desanimava, já que a sua própria alma se desfizera de alguns incomodos antes e tudo que restava por lá eram algumas feridas em processo de cicatrização. O mar lhe trazia esperança. E ela sabia que enquanto o mar estivesse por lá, suas esperanças também estariam. E no brotar de cada novo horizonte, ela estaria presente. Do lado daquelas árvores, observando aquelas ondas, pensando naquele homem. Porque ao final, a esperança é tudo que ela tem, e certamente é tudo que ele tem também. E deste modo eles jamais se perderão, pois ao que tudo indica, as ondas do destino os levarão ao mesmo lugar, onde tanto os pássaros, quanto as árvores já não serão mais importantes e o sentimento dos dois novos amantes preencherá todo aquele vazio existente dentro daquele vestido branco e daquele coração cheio de cicatrizes.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O Jardim de Maria

Num jardim de flores violetas. E vermelhas. E brancas. E é neste campo que minha mente caminha durante o acordar do sol de primavera. Neste lugar não faz frio, nem chove. O horizonte é cortado unicamente por uma árvore de raiz mais grossa e de folhas compridas e ásperas que embora retorcidas pela sua própria natureza não dão menos valor àquele lugar.
Neste ambiente ainda vivem alguns pequenos animais como lagartas, borboletas, gaviões e águias que dão a este lugar uma mistura de sutileza e valentia que transparesse e ultrapassa a fina linha existente entre elas.
Não costumo visitá-lo muitas vezes, embora devesse, por recomendações médicas. Mas, creio que ele não se importe com tal indiferença, já que todas as vezes que venho pra cá, ele continua lindo e perfeito em seu estado natural. Sem nuvens, nem chuva, nem sequer uma lágrima. Apenas o forte brilho do Sol e a alegria contagiante de quem fica por lá.
Talvez esse lugar não venha a ser tão rico em detalhes, mas certamente é grande o suficiente para armazenar quaisquer pensamentos, quaisquer mágoas, quaisquer problemas que os demais mundos não podem suportar. A sua energia promove a paz e absorve a solidão e a ansiedade que carrego todo o dia. Esse lugar me faz bem. Essa energia me faz bem. Tudo em volta é puro e contagiante e faz com que cada dia eu me distancie mais dos meus problemas. Obrigado a quem quer que seja por me levar até lá, mesmo que eu não tenha pés para pisar naquele solo ou que não tenha mapas para me levar àqueles mares. Obrigado por mesmo eu estando aqui, imerso neste meu próprio mar, eu possa, em cada fechar de olhos, voltar para lá. Porque em cada instante que me imagino em paz, eu estou lá. E isso para mim é tudo.

Guilherme BoaVista - sob pseudônimo de.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Roxo Como Amor Perfeito

Feliz 2013.

Eis que inicio mais uma tentativa de escrever por aqui

Meus leitores, tão fiéis, um dia hão de existir.
Por enquanto, escrevo pra mim mesmo, como forma de recordar o que já escrevi e a fase em que estou vivendo em minha vida

O peito inflava-se como se o seu coração fosse sair pela boca. No chão do quarto a camisa social já amassada se encontrava com a gravata, a calça cinza e um passado tão desfocado que nem mesmo ele ou ela sabiam do que se tratavam. Mas como o próprio amor é uma engenharia imperfeita, fez-se que ali estavam dois amantes incondicionais formados puramente do acaso. E que naquele momento não queriam saber de mais nada a não ser do enorme prazer de se fazer presente. Pelo quarto, o ventilador soprava leves brisas irregulares que vez ou outra mexiam os cabelos soltos da morena de olhos profundos e faziam daquele momento, único. O romance iniciado poucos momentos antes, já se inflamava em pequenas paixões e era derramado em cada carícia, em cada beijo, em cada olhada. O rapaz, ainda embaraçado, se mostrava guerreiro de seus próprios interesses e vez ou outra se inclinava para o lado, para ver se ainda vivia sob este conto de fadas. E por sua surpresa, não apenas vivia, como sobrevivia a todas essas pequenas atrações do amor. E se recompunha após cada apunhalada e após cada disparada de seu próprio coração, como que se soubesse que cada uma delas fosse lhe dar mais força, mais vida, mais motivação para viver neste seu sonho. 
Naquele momento não era mais sua carne que amava, mas seu coração. Era sua alma que necessitava dessa paixão para viver e agora, aquele peito tão afoito de início, se acalantava nos lençóis amarelados e acobertados pela doce voz de sua amada. Talvez aquela preocupação não fosse mais voltar, embora esta paixão só pudesse restar mais alguns minutos. Mas era apenas o que bastava para eles seguirem feliz. Era o que bastava para seguirem acordados e sonhando pelo resto de suas vidas. Por além dos tempos, por além dos colchões.


Guilherme BoaVista - sob pseudônimo de.