O tom enferrujado das folhas caídas já mostravam que o outono havia chegado na nossa pequena aldeia. Não eram somente as folhas, mas todo o cenário parecia ter tomado aquele ar alaranjado. O caminho trilhado anteriormente pelos passos marcados na neve, hoje era marcado por pequenas folhas e rastros de castores descuidados que deixavam suas nozes por ali.
Eu caminho em direção ao velho moinho. Não é que ele tenha sido grande coisa enquanto estivesse ativo, é que hoje ele representa tudo aquilo que eu fui ou que pretendo ser na vida. E isso era importante para mim.
O moinho quando foi construído lá pelos anos 30 ou 40, tinha grandes pretensões de trazer prosperidade e desenvolvimento para nossa região. E todos seus moradores ficavam animados em tê-lo por perto. Era novo. Pintado com as cores do verão. Animava tanto os velhos quanto as crianças. O cheiro de farinha saia de cada vão, de cada tábua que lá tinha sido pregado com entusiasmo e esforço por aqueles marceneiros.
De fato, a pretensão era tamanha que nem mesmo os jovens passavam sem admirar, mesmo que por alguns instantes, a beleza do moinho junto das folhas e dos pássaros que pousavam em seu telhado.
Mas, como nada dura para sempre, o moinho foi envelhecendo. As pás, antes tão ágeis e prestativas na sua tarefa de distribuir o cheiro de farinha, já não trabalhavam como antes. Tudo que restava era o barulho repetitivo do estalar de suas voltas e o canto de algum sabiá valente que se aventurava no meio daquele monumento antigo.
As pessoas já se acostumaram com o velho moinho. Nada era mais novo, nem diferente para aquela gente. O moinho havia feito o seu trabalho durante anos, e nada mais podiam fazer por ele.
Hoje eu caminho em direção ao velho moinho. Não que ele tenha sido grande coisa enquanto estivesse ativo, é que eu sei que se eu me aproximar dele, mesmo quando ninguém mais estiver se aproximando, eu conseguirei sentir aquele cheiro de farinha. E não somente o cheiro, mais a energia, a vitalidade e a sabedoria que somente um velho moinho pode proporcionar a seus admiradores. E por mais que o tempo ou os ventos mais fortes tentem, nada será capaz de quebrar aquilo que eu e o moinho havíamos construído durantes todos estes anos de convivência.
De vez em quando ainda me imagino refazendo os passos dos marceneiros. Construindo meus moinhos por aí. Talvez não consiga construí-los todos de uma só vez. É provável que não. Mas certamente, enquanto houverem sabiás corajosos o suficiente para se aproximar deles, eu não haverei de desistir de construí-los.
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